A beleza salvará o mundo

Que Deus nos ajude a perseverar na busca da beleza que é o rosto de Deus, que tenhamos neste ano paz e muito trabalho, para que possamos vencer na verdade e na justiça, os desafios do dia a dia.



A beleza salvará o Mundo.

Dostoeviski.



domingo, 26 de agosto de 2012

Nossa Senhora da Escada e o Yeshua


                          O PROJETO
  
A CAPELA  

                         

A OBRA REALIZADA

                             

                                     

Introdução

A idealização desta obra nasceu no encontro do clero em Curitiba, em agosto de 2011, quando o Padre Mário e o Padre Olmiro estavam presentes. Eles visitaram a minha exposição e depois de uma longa conversa agendamos uma visita à igreja no mesmo ano.
Depois de um longo período de silêncio, Padre Olmiro entrou em contato comigo outra vez e assim marcamos uma nova reunião, quando decidimos então fazer a obra e discutimos algumas sugestões para a criação do painel.
Em 21 de junho de 2012 foi apresentado o projeto artístico, o qual foi apreciado pela equipe responsável da comunidade, juntamente com o Pároco, Padre Mário, e o Padre Olmiro. Foram requeridas algumas modificações nas imagens para que ficasse mais simples o entendimento da obra. Então, no dia 27 de junho de 2012 a obra teve início.         


A TEOLOGIA DA OBRA E O SEU SIMBOLISMO


Toda a obra está voltada para a espiritualidade de N.Sra. da Escada e está dividida em três grupos de imagens, sendo que os momentos distintos estão intimamente ligados entre si, por se tratar, neste caso, de uma mesma pessoa, a Mãe do Senhor Jesus, que recebe o título de N.Sra. da Escada.
Essa espiritualidade, segundo as informações e devoções que chegaram até nós, tem sua origem em Portugal, na cidade de Lisboa, onde a imagem de origem era conhecida pelo nome de N.Sra. da Conceição da Escada. E assim, conforme os acontecimentos que se iam realizando no mundo marítimo, muitos foram os milagres a ela atribuídos: as vitórias alcançadas pelos portugueses nas batalhas, principalmente a de Aljubarrota, em 1385, onde em número bem inferior conseguiram repudiar o Rei de Castela. Além da independência do país estar em risco, seus soldados lutavam para ele não cair no Cisma, sendo que o Rei de Castela apoiava um anti-Papa. Além disso, a capela estava situada nas margens do rio, do qual era separada por 31 degraus. Com o passar do tempo, ficou conhecida como Capela de N.Sra. da Escada.
Outra notícia muito difundida é a de um milagre: um homem caiu num buraco e jamais conseguiria sair dali sem a ajuda de alguém quando, de súbito, apareceu-lhe uma mulher vestida com um manto azul e lhe estendeu uma escada, possibilitando, assim, sair do poço em que tinha caído.
Quanto às relações com a escada de Jacó, os doze degraus da humildade de São Bento, e outras atribuições, vou tentar inserir no texto da obra propriamente, dialogando com as figuras do painel.     
Aos que desejarem mais informações da origem desta devoção, há um número considerável de artigos na internet. O que mencionei aqui tem somente a intenção de formar uma idéia da origem dessa devoção para assim podermos criar um meio de costurar os retalhos da história com a espiritualidade da obra.  

                             NOSSA SRA. DA ESCADA


                             

Na introdução já vimos a origem do nome que se atribuiu à imagem de N.Sra. da Conceição que, sob a influência da arquitetura do local, rendeu-lhe um novo título: o de “N.Sra. da Escada”. Em seu nome cresceu uma grande espiritualidade e, por meio da fé, os acontecimentos e dificuldades humanas têm encontrado sentido e soluções.
Este ícone está localizado no lado direito do painel: é a imagem que fará ligação com as outras imagens da obra, por se tratar da devoção local da comunidade, onde já existe uma tela pintada posteriormente por ocasião da dedicação desta capela a N.Sra. da Escada.
Essa pintura foi interpretada livremente pelo autor. Buscando mais informações sobre sua origem, encontrei na iconografia um original que creio ter sido utilizado como referência para pintar a tela, por ser o ícone de N.Sra.da Conceição. Esse é também o estilo que utilizo nas minhas obras.
A composição da cena está ligada ao homem que cai no buraco e Nossa Senhora lhe acode com uma escada.  Se mergulharmos um pouco na mistagogia, veremos que o símbolo da escada alcançada para este homem também está ao nosso alcance quando temos de enfrentar nossas dificuldades.
Ao ser salvo de uma queda acidental, esse homem pôde experimentar a graça que só alcançam os que creem, de poder ver pelos olhos da fé e tocar pela humilde condição humana em que se encontrava a fonte da graça. Na escada está simbolizada a misericórdia de Deus dispensada a nós pelo socorro oportuno daquela que é mãe e que jamais nos abandonará nas quedas e nos abismos dos nossos pecados. Esses pecados são muitas vezes conscientemente praticados por nós, mesmo sabendo que eles nos impedirão de subirmos a escada proposta por Deus para chegarmos à consciência livre dos filhos de Deus, tal qual o homem que no abismo real de sua situação pôde ascender para a liberdade e a alegria dos que livres do pecado podem contemplar a Deus em seus gestos de carinho e misericórdia.
Às vezes me pergunto: por que Nossa Senhora, e não o Próprio Senhor intervém nessas circunstâncias de nossa vida? Não tenho respostas, apenas indagações. Creio que a figura da mãe nos é muito próxima, é a lembrança da mãe que nos socorria quando nos metíamos em encrenca ou nos acidentávamos, ou por que não quando caíamos nos buracos da vida e não conseguíamos nos livrar deles; é esta mãe que aparece sempre na hora da dor e do desespero. Creio que aqui cada um pode lembrar suas próprias experiências das quedas, dos buracos em que já caiu, das situações em que foi verdadeiramente salvo pela mãe, e que na maioria das vezes, nem sequer se deu conta desta escada que lhe foi alcançada e quem estava por detrás dela.
Assim representei a imagem de Nossa Senhora por trás de uma espécie de escada porque nesse caso foi uma escada usada por Nossa Senhora, mas, em outras situações, o que Deus nos alcançará por meio de Nossa Senhora? O que Deus já lhe alcançou a fim de que você pudesse se apoiar para sair ou ser salvo do mal deste mundo? Você conseguiu ver - como aquele homem - quem estava por trás da escada que te salvou?
Esta escada também se liga com o altar, que é o centro desta igreja, “sem altar não há Eucaristia”. Muitas comunidades se preocupam unicamente com o sacrário, tendo o altar como que quase dispensável; o Altar é o próprio Cristo (São Cirilo de Alexandria) que está no meio de nós. Jesus é Altar, Sacerdote, e Cordeiro. Altar porque não foi sacrificado sob nenhum altar judaico e sim sob a cruz dos romanos, suspenso entre o céu e a terra, por isso o seu corpo é o próprio altar. Sacerdote porque Ele mesmo se oferece ao Pai em seu corpo e sangue (pão e vinho, segundo a ordem de Melquisedeque). Melquisedeque oferecia como sacrifício pão e vinho, isso já no início da história da salvação, quando era comum se oferecer touros, cordeiros, pombos, bodes, etc. E Jesus é reconhecido como sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque por se utilizar dos mesmos símbolos, pão e vinho. Na frase da escritura, que diz: “Não quisestes vítimas, nem holocaustos e sim me destes um corpo”. É com este corpo que Jesus se auto-oferece ao Pai porque só ele mesmo poderia se oferecer perfeitamente. Nele estava contida toda a verdade e toda a libertação. Ele era a própria vítima, o verdadeiro Cordeiro Pascal, aquele que tira o pecado do mundo. Por que Jesus é a vítima perfeita? Ele é o próprio filho de Deus, não mais um cordeiro. Quando Jesus morre na cruz o sacrifício é eterno porque Deus é eterno, e um gesto de Deus é para sempre, não precisa se repetir.
Nós fizemos memória da atitude de Deus na cruz na pessoa de Jesus Cristo, pela ação do Espírito Santo. Deus se faz presente na eucaristia, mas o gesto de salvação é único. Nós fizemos memória (Fazei isto em memória de mim). Deus não se repete, apenas usufruímos de um gesto eterno de Deus.
A Eucaristia é fruto do altar, portanto o que é mais importante: o pé da laranja ou a laranja? Temos que admitir que é o pé da laranja por produzir a própria laranja.
Assim, o altar é o centro da assembléia e deve ocupar o centro da igreja, onde as reservas eucarísticas deverão ser guardadas em um lugar apropriado e de imensurável beleza por se tratar da morada do Senhor no meio de nós e presente na Eucaristia. Vou voltar a este assunto quando falarmos da capela do Santíssimo que estará localizada no lado esquerdo do painel.
Passando pelo altar vai se ligar com a outra cena, que é a descida de Jesus da cruz, mas para falar desta cena temos que voltar ao centro da obra que desta se liga através de uma cruz, a cruz que Jesus carrega na sua paixão a caminho do calvário. Este caminho se liga novamente com o altar. Toda a obra está intimamente ligada ao mistério do nascimento, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Nascimento: no ícone de N.Sra. da Escada. Paixão e morte: na via dolorosa e na descida da cruz. Ressurreição: na celebração eucarística no Altar e no mistério da eucaristia guardado no meio de nós.
Ainda no lado do ícone de N.Sra. da Escada podemos observar que a lua se faz presente, dizendo que a luz brilhou nas trevas, porque Maria dá à luz aquele que é a luz do mundo. Portanto, já não há mais trevas e todos podem contemplar a salvação do mundo. Também em Apocalipse 12,1-6 fala-se desta mulher vestida com o sol,  tendo a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça; é reconhecida como a mãe do Salvador.
Por isso a presença da noite com as estrelas. Tudo está submetido àquele que nasceu da Virgem Maria, a Nossa Senhora da Conceição, a Nossa Senhora da Escada, enfim, a mãe da libertação, da consciência livre. Com isso podemos voar como esses pássaros para junto de nosso Deus e contemplar as maravilhas que Ele nos fez.




Do encontro de Nossa Senhora com Jesus
O Yeshua


                                

Seguindo o painel vamos ao centro nos encontrar com Jesus e sua Mãe, cena que em si não precisaria de nenhuma explicação, mas por causa de alguns comentários desprovidos de conhecimento ou de capacidade para enxergar alguma beleza ou significado, vamo-nos ater ao essencial.
Este encontro é conhecido como o Yeshua, que quer dizer em português “Mamãe está aqui! Vamos, coragem, mamãe ajuda!” É difícil traduzir esta cena. Pois é uma teofania de Deus e ao mesmo tempo manifestação de uma condição humana levada ao extremo de suas necessidades. Deus aqui estava tão perto de nós e tão igual a nós que não faltou nada em sua encarnação. Ele foi ao extremo até onde nós nem sequer fazemos idéia da humilhação e rebaixamento de um tão grande Deus. Aqui o Diabo fugiu aterrorizado diante de tão grande resignação, sem compreender o que Deus estava fazendo ali, por lhe ser estranho tamanho amor e compaixão. Assim vai e tenta morrer se enforcando em Judas. Procurou desta forma também morrer, mas não para salvar alguém senão a si mesmo, querendo imitar Deus, que morreria para salvar seus filhos. Achou que assim conseguiria escapar da verdadeira e derradeira morte que a cruz lhe causaria. O Diabo tentou morrer em Judas para se esconder da vitória de Jesus. Mas a morte de Jesus venceria qualquer tipo de morte, desmascarando a infídia tentativa de Satanás que era se esconder atrás da morte. Não sabia este que cantaríamos assim: Ó morte, cadê a tua vitória, Ó morte, cadê tua força, Ó morte, cadê teu aguilhão; Ó morte, vencida por tão grande preço que de valor não tinhas nada, mas por amor extremo fostes valorizada. Mas que ninguém te quer comprar, porque de nada vales.
Quero a vida e a vida em abundância que Deus nos deu na vitória de Jesus na cruz. Obrigado, meu Deus, por ter me comprado por grande valor. Mesmo não valendo nada, me resgataste por um alto preço, nada menos que a morte de teu filho Jesus querido e manso cordeiro.
Este caminho que vai do altar até o céu e do céu até o altar é a história humana que se cruza com a de Deus e a de Nossa Senhora. Como que numa escada subimos pela humildade, mas também podemos cair pelo pecado e humilhados somos levados a querer desistir. É nessa hora que aparece a figura da Mãe da Escada nos dizendo Yeshua, Yeshua  (Mamãe está aqui, Mamãe está aqui, não desista! Mamãe te ajuda!)
Muito se poderia dizer ainda, mas é preciso que cada um faça esse encontro e possa ouvir do próprio Deus junto com Maria o seu Yeshua! A Cruz que Jesus carrega tem uma história muito interessante. A primeira é que a cor proposta no projeto dividiu a opinião já no início da apresentação, fato que me levou a refletir muito: é a cor ou a cruz que nos incomoda?
 Ficamos presos quase que até o fim da obra na cruz, discutindo quase todos os dias sobre ela, fizemos tentativas de cor, experimentamos diversas vezes, mudamos de cor e parecia que não chegaríamos ao fim com uma solução adequada, onde ela pudesse se encaixar, na nossa visão criando harmonia com toda a obra. É incrível como essa cruz foi um fator determinante em todo o conjunto do painel.
Pois bem! Chegamos ao último dia da obra e a cruz continuava sem um final glorioso. Havia uma cruz velha retirada da igreja e que deveria ser restaurada. Quando passei por ela vi a cor da cruz que deveria ser a do painel. Sabia que deveria ser algo com verde azulado puxando para o cinza, e assim iniciei uma busca pelo tom ideal. No final da tarde, já exausto do trabalho a ponto de desistir e deixar para o outro dia tive uma iluminação. Vi que se eu misturasse todas as cores de tintas que usei no painel daria a cor da cruz. Dito e feito, peguei uma lata e joguei todos as sobras de tinta em proporções iguais e misturando entre si surgiu a luz que iria fechar todo o painel. Foi como acender uma luz no escuro e eu disse: a obra está pronta, acabou!
Esta dificuldade me ajudou muito a escrever esta obra. É uma mística situação que mostra como a cruz juntou e atraiu tudo para si. Assim, vi que não poderia ser outro símbolo a não ser a cruz para finalizar a obra. Mas também foi aquela que pôs fim à desarmonia no mundo, às divisões, às discórdias, às murmurações, à preguiça espiritual. Motivo de todo tipo de pecado na vida religiosa, sacerdotal e leiga, a perda de sentido da vida. Esta cruz poria fim também às doenças, traria a libertação dos homens das garras do Diabo, devolvendo a dignidade dos filhos de Deus.
Aqui poderíamos enumerar infinitos benefícios que a sagrada cruz nos trouxe e pôs fim na gritaria do mundo enlouquecido pelo barulho da ganância e do ódio. É preciso que continuemos a anunciar Jesus Cristo e Jesus Cristo Crucificado, loucura para alguns e sabedoria para os que crêem.
E é assim que, conduzidos pela cruz, iremos descer até o ícone em que Maria ajuda a tirar Jesus da cruz.
                                         
         Maria ajuda a descer Jesus da cruz
                                 
              


Outra vez vamos nos encontrar com Maria. É a mesma Maria que de pé diante da cruz não abandona o seu filho. Mesmo diante da morte Maria consegue permanecer de pé. Outra vez Maria poderia dizer: mamãe está aqui! Com toda certeza Jesus se sentia mais forte e mais resignado para ir até o fim, cumprindo a vontade do Pai. Jesus vê na obediência de Maria, que de forma alguma tenta impedir que ele cumpra a vontade de Deus, mesmo vendo o filho sendo trucidado. Maria sabia que por trás de tudo isso estava um Deus libertador e tão materno quanto ela, que jamais abandonaria um filho naquela situação. Em seu interior, Maria implodia de dor, mas era preciso permanecer de pé para que Jesus pudesse levar até o extremo de suas forças a crueldade humana sobre si, para que não nos faltasse nada, em nossa libertação.
Ao cairmos na extrema dor da doença ou da maldade humana lembremo-nos deste fato: não há nada  maior que possamos passar  que Jesus não tenha sofrido em si mesmo. Portanto, na fé temos condição de resistir ao mal deste mundo e passar mais fortes pelas adversidades a que somos submetidos no dia a dia de nossa existência.
A mesma mãe que acolhe João como seu Filho; e João acolhe Maria como sua Mãe, está presente no primeiro milagre; ao morrer Jesus na Cruz, toda a humanidade ganha uma mãe capaz de interceder por seus filhos diante de Deus.
Por que Maria é capaz de interceder por nós e ser co-redentora da humanidade?
Porque Maria desde o ventre materno de sua mãe já estava sendo preparada para ser mãe da humanidade. Primeiro a sua imaculada conceição, depois concebe pela ação do Espírito Santo o Verbo de Deus. Logo que se encontra com Isabel a humanidade estremece de alegria no reconhecimento de João Batista e de sua mãe por Maria, que trazia em seu ventre o filho de Deus. Depois só Maria e José sabem da vida de Jesus na sua infância e adolescência. Até Jesus se apresentar a nós há um longo mistério e que somente Maria soube guardar e creio que isso a formou para ser esta mãe capaz de nos co-redimir junto de Deus.
Outro fator determinante é que Maria sofreu a paixão de sua vida. Junto com Jesus não foi nem flagelada nem crucificada, mas existe maior dor e tormento de uma cruz tão pesada ao ver seu único filho sendo destruído, e sua carne sendo dilacerada diante de si, e nada poder fazer para aliviar essa dor?  Seu belo e precioso tesouro que humano algum pode sequer pensar em ter! Ainda mais, ver seu filho sendo pregado em uma cruz todo destruído, quase em pedaços, onde os pregos o sustentariam para não se partir definitivamente, vê-lo gritando na cruz pelo Pai e olhando para a mãe! Quem suportaria isso e não reagiria na defesa de seu bem amado? Quem não morreria de angústia na hora ou depois na depressão ao ver seu único filho pedindo água e não lhe poder sequer estender uma gota para lhe aliviar a sede? Quem não morreria ao ver seu filho sendo morto diante de si como se fosse um animal sem valor algum? Como então podemos duvidar que Maria teve  sua paixão, morte e ascensão ao céu, e está à direita de Jesus, coroada como Rainha do céu e da terra, e é advogada nossa?
 É esta Mãe que está junto de todas as Mães e pais que veem seus filhos sendo destruídos pelas drogas, pelo alcoolismo, pela violência, pela ganância, pelo ódio, pela inveja do ter e não ter condição de ter tudo o que quer, o tráfico que escraviza, pune e mata quem cruza seu caminho e não lhe obedece, aquele que mata por um tênis ou uma camisa. A escravidão dos empregos subumanos, a violência dentro de casa, a corrupção que tira da boca de seus filhos o pão de cada dia, a escola que desinforma em vez de formar para a vida. Li uma frase numa comunidade na sala de catequese que dizia o seguinte: “Eduquemos as crianças para não bater nos homens”.
Creio que isso poderia encerrar esta parte da nossa meditação, que parece estar desconectada do assunto, mas ao contrário, é isso que vai fazer a ligação para encerrar essa explicação da obra.
Precisamos caminhar pelo calvário até chegar o momento de retirar Jesus da cruz, e depositá-lo no sepulcro para esperar o dia da ressurreição.
Novamente Nossa Senhora de pé recebe seu filho morto nos braços, chorando, sim, mas resignada na esperança da promessa da ressurreição. Podemos notar que Maria está com um pé apoiado na cruz e o outro no chão. Isso quer dizer que não devemos perder a noção da realidade e permanecer o quanto possível conscientes de quem somos e para que fomos criados.
Essa consciência é que nos manterá firmes na fé e quando o momento da nossa paixão chegar, precisamos lembrar que somos seres humanos e não  super- heróis como nos quer infundir a mídia, criando em nós uma falsa idéia de que somos capazes de tudo. Na verdade nos deparamos com a limitação humana e diante disso adoecemos porque não sabemos lidar com as frustrações impostas pelo apelo ao consumo desordenado e pela malícia das novelas, fonte de maior destruição das famílias. Se percebermos, Maria aparece com calçados nos pés, na cor vermelha, o que significa que passou por tudo com dignidade e assim merece usar os sapatos que só os nobres tinham direito de usar.
Atrás da cruz está a árvore da vida, que no jardim do Éden era a árvore, cujo fruto Adão e Eva foram proibidos de comer. Por que uma proibição, se Adão e Eva foram criados livres, à imagem e semelhança de Deus? Num mundo livre pode haver proibições?  Não, não pode, mas Satanás já havia desobedecido e Deus não queria perder a sua imagem e semelhança que colocou no rosto do homem. Deu-lhe então uma única recomendação: que não lhe desobedecesse, para que pudesse permanecer na sua presença e contemplar a sua face. Lembremos as delícias do paraíso narradas no Gênesis. Uma delas era a visita de Deus no final da tarde a Adão e Eva no paraíso.
Com a queda de Adão e Eva, entra o pecado pelo fruto comido da desobediência.  Assim Jesus, que Maria segura nos braços, é o novo Adão, que não desobedece ao Pai, que dignifica e enaltece de novo a imagem e semelhança que Deus tinha posto no rosto do velho Adão.  Assim Deus poderia olhar de novo para o homem que ele criara para sua alegria e o homem criado poderia olhar novamente para o seu criador. Realidade esta que se confirma no rosto de Jesus, quando Felipe o indaga e diz: “Mostra-nos o Pai e isso nos basta! e Jesus responde: “Felipe, há tanto tempo que estou convosco e não me vês. Quem me vê, vê o Pai, o Pai está em mim e Eu estou no Pai, e somos um só”.
Este novo Adão também é a nova árvore da vida que não mais produzirá o fruto que leva à morte, e sim o fruto da vida que brota na cruz. Quando o soldado abre o lado direito de Jesus, a cruz, que era símbolo de maldição, agora brota como árvore viçosa por ter sido regada por tão precioso líquido - sangue e água de nosso Deus.
Por isso é que o sacrário está colocado junto a este Ícone, porque no sacrário está o novo fruto da vida, que não mais nos leva à morte e, sim, faz-nos experimentar as delícias do céu aqui na terra. Pão dos Anjos, pão dos homens.
A presença do sol é a luz plena, bendito o sol nascente que nos veio visitar, Aleluia, Aleluia, Aleluia, o Senhor ressuscitou, Aleluia, Aleluia, Aleluia.                            
As águas aqui representadas fazem menção ao nosso batismo, que, como Jesus foi mergulhado nas águas do Jordão e santificou todas as águas do mundo, assim também somos santificados ao sermos mergulhados na fonte batismal. É assim que a Igreja Mãe acolhe seus filhos nas fontes das águas. Estas águas, se prestarmos atenção, recebem em si os rios que brotam aos pés da árvore da vida, vêm do paraíso segundo as escrituras Gen.2,4b-18.
Deus continua a fecundar a terra para o homem. Essa mesma imagem da água que brota está em Apo.22,1-2, agora não mais do paraíso, mas do próprio trono de  Deus. Escutemos o que diz: “Mostrou-me depois um rio de água da vida, brilhante como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro, no meio da praça, de um lado e do outro do rio.” Há árvores da vida que frutificam doze vezes, dando fruto a cada mês; e suas folhas servem para curar as nações.
Creio que poderíamos atribuir esta passagem à Eucaristia. As doze árvores são os doze Apóstolos, com toda a igreja; as águas vivificantes são o Espírito Santo, que vivifica todas as coisas e torna fecunda a Igreja com seus dons. As folhas destas árvores são a eucaristia, que serve para nos curar e como estas árvores fecundas é a Igreja, que doze vezes ao ano, isto é, o ano todo produz os frutos da vida pela eucaristia. Assim, temos no meio de nós mais uma árvore da vida - o Altar, que com abundantes frutos alimenta seus filhos e ainda permite guardar como reserva aos necessitados e doentes este fruto bendito de Deus. Amém. Aleluia.  
                        
                                                                       Joinville, 02 de agosto de 2012.
            

                                                                       João Zabel
                                                                       Artista Plástico






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